PODE MATAR MEU PADASTRO ?

Um garotinho caminhou até nossa mesa de motociclistas e perguntou: "Vocês podem matar meu padrasto para mim?"

Todas as conversas pararam. Quinze bikers vestidos de couro ficaram paralisados, olhando para aquele garotinho com uma camisa de dinossauro que acabara de nos pedir para cometer um assassinato como se estivesse pedindo uma balinha. Sua mãe estava no banheiro, sem saber que o filho havia se aproximado da mesa mais assustadora do Restaurante Boi na Brasa, sem saber o que ele estava prestes a revelar.

"Por favor", acrescentou ele, com a voz baixa, mas determinada. "Tenho 10 reais." Tirou uma nota amassada do bolso e a colocou sobre a mesa, entre as xícaras de café. Suas mãozinhas tremiam, mas seu olhar estava sério.

Michel Maluco, presidente do nosso clube e avô de quatro netos, ajoelhou-se. "Qual é o seu nome, meu amigo?"

"Léo", sussurrou o menino. "Mamãe já vai voltar. Você vai ajudar ou não?"

"Léo, por que você quer que a gente machuque seu padrasto?" Michel Maluco perguntou gentilmente.

O garoto abaixou a gola da camisa. Impressões digitais roxas e tênues marcavam seu pescoço. "Ele disse que se eu contar para alguém, ele vai machucar a mamãe mais do que eu. Mas vocês são motociclistas. Vocês são valentes. Vocês podem acabar com ele."

Foi então que notamos todo o resto: o jeito como ele se inclinava para o lado esquerdo, o pulso vermelho, o hematoma amarelo desbotado no maxilar que alguém tentou esconder com maquiagem. Antes que alguém pudesse responder, uma mulher saiu do banheiro. Bonita, mas andando com os movimentos cuidadosos como alguém que esconde a dor. Ela viu Léo na nossa mesa e o pânico tomou conta de seu rosto.

"Léo! Desculpe, ele está incomodando vocês..." Ela correu até nós, e todos nós a vimos estremecer. Também vimos a maquiagem pesada em seu pulso, borrada o suficiente para revelar hematomas roxos que combinavam com os do filho.

"Sem problemas, Dona", disse Michel Maluco, levantando-se lentamente. "Na verdade, por que vocês dois não ficam com a gente? Estávamos querendo pedir a sobremesa. Por nossa conta." Não foi um pedido.

Ela se sentou relutantemente, puxando Léo para perto. "Léo", disse Michel Maluco, "alguém está machucando você e sua mãe?"

Sua compostura vacilou. "Por favor", ela sussurrou. "Você não entende. Ele vai matar a gente."

"Senhora, olhe ao redor desta mesa", Michel Maluco interrompeu baixinho. "Todos os homens aqui já se meteram em problemas para ajudar outras pessoas. Todos nós protegemos pessoas inocentes de valentões. É isso que fazemos. Agora, alguém está machucando você?"

Seu aceno silencioso e choroso foi toda a resposta de que precisávamos. E foi então que um homem de camisa polo surgiu de uma mesa do outro lado do restaurante, com o rosto vermelho de raiva. "Sara! Que diabo é que você está fazendo falando com esses malucos? E você, menino! Venha aqui agora!" Ele começou a vir em direção à nossa mesa.

Michel Maluco se levantou rapidamente. Não levantou a voz. Não cerrou os punhos. Simplesmente se tornou uma montanha. "Meu amigo", disse ele, com a voz grave e perigosa que cortava a conversa dos clientes. "É melhor voltar para sua mesa. Sua família vai tomar sorvete com a gente."

"Vai o caramba!", disparou o homem, obviamente o padrasto. "São minha esposa e meu filho!"

"Não", disse Michel Maluco, dando um pequeno passo à frente, enquanto os outros quatorze motociclistas se levantavam silenciosamente atrás dele. "São uma mãe e uma criança que estão sob nossa proteção agora. Você não vai levar eles a lugar nenhum. Você vai voltar para sua mesa, pagar a sua conta e ir embora. E não vai seguir ninguém. Entendeu?"



O homem olhou para a muralha de couro e fúria que se construiu entre ele e suas vítimas. Ele era um valentão, e valentões são covardes. Ele gaguejou, empalideceu e recuou.

Foi o fim da luta, mas também o começo da guerra. Não deixamos a mulher e o menino ir para casa. Um dos nossos motociclistas, um advogado que chamamos de "Tubarão", foi com a Sara pedir uma medida cautelar enquanto o resto de nós levava o Léo para o clube. Compramos para ele o maior milkshake de chocolate que ele já tinha visto. Pela primeira vez no dia, ele parecia um garotinho, não um cliente desesperado.

Não matamos o padrasto. Fizemos algo pior. Nós o apagamos. Tubarão e alguns dos nossos irmãos mais... persuasivos... fizeram-lhe uma última visita. Não tocaram nele. Apenas lhe falaram do futuro: uma ficha corrida de acusações de agressão que garantiríamos que fossem cumpridas, ingresso na justiça para Sara e Léo e a escolta e a atenção total e exclusiva de quinze Bikers que agora consideravam cada movimento seu um assunto pessoal. O valentão sumiu do mapa.

Mas não apenas removemos o monstro; ajudamos a curar as feridas. Unimos nossos recursos e acomodamos Sara e Léo em um apartamento novo e seguro do outro lado da cidade. Ajudamos na mudança, com nossas Harleys barulhentas servindo como a escolta do caminhão de mudança mais intimidador da história.

Nos tornamos tios do Léo. Nós o levamos a jogos de futebol. Nós o ensinamos a mexer em nossas motos na oficina. Nós fomos na reunião de pais e professores da escola dele, uma fila de gigantes vestidos de couro garantindo que todos soubessem que ele era amado e protegido. Nós mostramos a ele o que são homens de verdade — protetores, não predadores.

Alguns meses depois, num churrasco no clube, Léo se aproximou do Michel Maluco e lhe entregou um desenho. Era a imagem de um dinossauro enorme e sorridente, vestindo um colete de motociclista, em pé sobre um garotinho. "É você", disse Léo. "Você é o dinossauro bom que espantou o dinossauro malvado."

Michel Maluco sorriu, com os olhos marejados. Léo tirou os dez reais amassados ​​da carteira, que mantinha achatado e seguro e entregou para o biker. "O melhor pagamento que já recebi por um trabalho", disse Michel Maluco, com a voz rouca.

Léo não conseguiu o assassino que tentou contratar naquele dia. Ele conseguiu algo muito melhor. Ele conseguiu uma família.

(HISTÓRIA REAL - RELATO DE UM MOTOCLUBE 1% - NOMES E LOCAIS ALTERADOS)

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